Envelhecer não é uma doença: mudar a narrativa
Vivemos num tempo em que a medicina avança, a esperança média de vida aumenta, e a longevidade é celebrada como conquista civilizacional. Ainda assim, o envelhecimento é, frequentemente, retratado como uma anomalia, uma patologia ou, no limite, uma tragédia. Esta visão distorcida não é apenas injusta: é perigosa. Envelhecer não é uma doença. É um processo fisiológico, natural e universal. No entanto, a forma como olhamos para ele continua marcada por preconceitos, medos e estigmas sociais. E é esta perceção — e não a idade em si — que “adoece” a sociedade.
Na verdade, é uma questão de linguagem… e de política A Organização Mundial da Saúde (OMS) é clara:
“O envelhecimento é um processo contínuo de acumulação de experiências e mudanças ao longo da vida. Não é uma doença, mas pode estar associado a condições crónicas que exigem atenção adequada.”
No entanto, em muitos contextos — da comunicação social às salas de espera de hospitais — as pessoas idosas continuam a ser tratadas como se fossem inevitavelmente doentes, frágeis, dependentes. A linguagem usada — “coitadinho”, “avôzinho”, “já não tem cabeça” — reforça esta ideia.
Mas a linguagem nunca é neutra. Ela molda comportamentos, expectativas e políticas públicas. Quando a sociedade acredita que envelhecer é sinónimo de decadência, tolera-se mais facilmente a negligência, a exclusão e o abandono.
Este preconceito tem nome: chama-se idadismo. É definido pela OMS como:
“Os estereótipos, preconceitos e discriminação contra pessoas com base na sua idade.”
Isto traduz-se, na prática, em:
– Subdiagnóstico de sintomas ou desvalorização da dor nas pessoas idosas;
– Ausência de investimento na formação em geriatria e cuidados continuados;
– Desrespeito pela autonomia da pessoa idosa nas decisões sobre a sua própria vida. Não é inevitável. É político.
É essencial compreender que o sofrimento associado ao envelhecimento não é sempre consequência da idade. Muitas vezes, é consequência direta da falta de políticas públicas adequadas, de recursos, de acessibilidade, de cuidados integrados. A inexistência de um Plano Nacional para o Envelhecimento digno, a falta de fiscalização nos lares, a existência de “lares ilegais” e o desinvestimento no apoio domiciliário não são tragédias naturais — são escolhas políticas. E, como tal, podem e devem ser questionadas e transformadas.
Precisamos de outra visão. Precisamos de mudar o olhar.
É urgente promover uma nova narrativa sobre o envelhecimento:
– Uma visão que reconheça o valor social, cultural e económico das pessoas mais velhas.
– Que respeite o seu direito à autodeterminação.
– Que compreenda a diversidade da velhice —há idosos ativos, outros frágeis, alguns dependentes, outros plenamente autónomos.
– Que se rejeite a infantilização, a invisibilidade e o assistencialismo.
Esta mudança começa no discurso público, mas também nas escolas, nas universidades, na comunicação e nas redes sociais. É por isso que nós, jovens, devemos falar de envelhecimento.
Devemos ser a juventude que recusa repetir o erro.
Enquanto jovem, recuso a ideia de que os direitos só interessam quando nos tocam diretamente. Recuso o silêncio cúmplice diante do abandono e da marginalização de quem envelhece.
Se hoje não lutarmos por uma velhice com direitos, dignidade e liberdade, seremos nós, amanhã, a pagar o preço.
Falar de envelhecimento não é olhar para o passado — é preparar o futuro.
É afirmar que envelhecer pode ser sinónimo de autonomia, criatividade, liberdade, amor, luta.
É afirmar que cuidar não é caridade nem voluntariado — é justiça social.
Não aceitaremos que o envelhecimento seja tratado como um erro do sistema. Porque envelhecer é continuar. E é com essa força — com a força de quem não se conforma — que as novas gerações têm o dever de garantir que continuar seja possível – com cuidado, direitos e respeito.
