Os portugueses são felizes, mas alguns são mais felizes do que outros

Set 10, 2015

“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”
George Orwell

Socorro-me da célebre frase de Orwell para ilustrar a “distribuição” desigual da felicidade em Portugal. Com efeito, embora a sua busca seja um desígnio individual, nem todos têm as mesmas condições para prosseguir na sua senda. O local onde se vive e trabalha, o sexo, a idade, a escolaridade e a classe social, embora não sejam determinantes na percepção da felicidade, são condicionantes que devem ser tidas em conta. Assim, parafraseando a frase de Orwell, direi que os portugueses são felizes, mas alguns são mais felizes do que outros. Senão vejamos.

A média da felicidade dos portugueses, numa escala de 0 a 10, em que 0 significa “extremamente infeliz” e 10 “extremamente feliz”, é 6,63 e a sua distribuição é a seguinte:

Felicidade em Portugal

felicidade1

Como se observa, apenas 11,2% se consideram infelizes, contra os 73,5% que se dizem felizes. No meio há 15,4% que não se consideram felizes nem infelizes.

Tendo como referência a média e o desvio em relação à média da felicidade2, podemos concluir que os portugueses mais felizes vivem na região norte (6,9) e os menos felizes, no Algarve (5,7). O Centro (6,6), Lisboa e Vale do Tejo (6,5) e o Alentejo (6,5), apresentam valores médios em torno da média total (6,63). É em Lisboa e Vale do Tejo que se observa a maior desigualdade da distribuição e no Centro a menor.

felicidade2

Pode parecer estranho que os algarvios se considerem menos felizes, mas não é, pois temos que levar em conta que nas perguntas de auto-classificação, como é o caso, presentes nos inquéritos por questionário, os inquiridos procedem a uma comparação social com os outros que lhe estão próximos, para responderem. No caso do Algarve, as respostas sofrem, certamente, da comparação dos inquiridos com os turistas “mais ricos” da Europa.

Os resultados por sexo, idade, escolaridade e classe social, permitem-nos concluir que, em termos de felicidade alguns portugueses são mais felizes do que outros. Os mais felizes, com níveis de felicidade superiores à média total são: homens (6,8)3, mais novos (7,35), mais escolarizados (7,15) e Profissionais técnicos e de enquadramento (7,04).

felicidade3

No regresso das férias, pensem nisto e sejam felizes, busquem a vossa felicidade.

Publicada em 04-07-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 16

http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=f64e19ec1ef4f55c122d58b39a36629c%2624567%26CLT0%26TMP1000090 9%2620150904

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Felicidade Interna Bruta

Ago 18, 2015

“Entre os méritos do homem e da mulher, considerados no seu justo valor, não
há diferenças, ou pelo menos não apresentam as diferenças que a tradição nos
ensinou. Para a mulher, como para o homem, o gosto de viver é o segredo da
felicidade e do bem-estar”

Bertrand Russel

A Felicidade Interna Bruta (FIB), por analogia com o Produto Interno Bruto (PIB) tem ocupado largo espaço nos media, especialmente depois de Sarkozy, em Fevereiro de 2008, ter criado uma comissão para estudar o conceito.

Essa comissão, presidida por dois prémios Nobel de grande prestígio: Joseph Stiglitz, da Universidade de Columbia, ex-director do Banco Mundial e Amartya Sen, da Universidade de Harvard, e por JeanPaul Fitoussi, director de pesquisa do OFCE e professor emérito do IEP em Paris, terem apresentado o seu relatório com doze recomendações. Como referem no seu relatório (disponível em http://stiglitz-sen-fitoussi.fr/en/index.htm) os autores notam que os nossos sistemas de medida focam-se muito mais na produção económica do que no bem-estar das pessoas. A mudança de ênfase do PIB para o bem-estar não significa, contudo, que se abandone o primeiro, pois a informação em que se baseia continua a ser importante, nomeadamente no que se refere à monitorização da economia. No entanto, essa informação é insuficiente, tornando-se necessário recolher informação complementar centrada no bem-estar sustentado das pessoas. “Há várias dimensões do bem-estar, mas um bom começo é a medição do bem-estar material ou padrões de vida. Tal sistema não deve apenas medir os níveis médios de bem estar dentro de uma dada comunidade, e como mudam ao longo do tempo, mas também documentar a diversidade de experiências dos povos e as ligações entre as várias dimensões da vida das pessoas”. Nas suas recomendações propõem que a avaliação do bem-estar material se centre no rendimento e no consumo em vez da produção, devendo contemplar medidas que permitam melhorar a saúde, a educação e o meio ambiente, através de indicadores robustos e confiáveis capazes de medir as conexões sociais, a participação política e a insegurança e avaliar desigualdades de uma forma global.

Nesta perspectiva, a distribuição do rendimento torna-se mais importante do que o rendimento médio per capita. Em vez de nos focarmos no PIB, devemos focar-nos na FIB (Felicidade Interna Bruta), considerada como um indicador de bem-estar social, que exprime, num dado país, o “stock” de felicidade das pessoas, cuja busca, como está inscrito na Constituição Americana, deve nortear os objectivos da governação. Consideram que a felicidade é uma expressão do bem-estar subjectivo, conceito multidimensional, assente nas seguintes dimensões-chave, que devem ser consideradas em simultâneo: i) Padrões materiais de vida (rendimento, consumo, e riqueza), ii) Saúde, iii) Educação, iv) Actividades pessoais, incluindo o trabalho, v) Voz política e governação, vi) Conexões e relações sociais, vii). Ambiente (condições actuais e futuras) e viii) Segurança de natureza económica e física.

O Índice de Felicidade Interna Bruta , construído com base nestas dimensões2, apresenta a seguinte distribuição na Europa:

Felicidade Interna Bruta na Europa

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Fonte: European Social Survey, 2008

Numa escala estandardizada em que o valor 0 significa a média do conjunto, os países Escandinavos e a Europa do Centro, com excepção da França registam valores médios superiores à média, enquanto os países Pós-comunistas e Portugal registam valores médios inferiores. Saliente-se ainda que, a exemplo do que acontece com a distribuição do PIB, os países “mais felizes” são também os que registam as menores desigualdades na distribuição da FIB:

Felicidade Interna Bruta na Europa
(média e desvio-padrão)

opiniao-ruibrites-fib-2

Fonte: European Social Survey, 2008

Portugal situa-se no quadrante dos países “menos felizes” e maior desigualdade na distribuição da FIB. Note-se que a nossa vizinha Espanha, com quem gostamos de nos comparar, se situa no quadrante oposto: “mais felizes” e “menos desiguais”. Aproveitem este período de férias e sejam felizes, busquem a vossa felicidade.

Publicada em 04-07-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág. 15 (http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=4025bcff909b25651b6095f15f8c7150%2624567%26CLT0%26TMP10000909%2620150815)

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RESOLUÇÃO DO CONSELHO DE MINISTROS NA DESPEDIDA DA LEGISLATURA SERÁ DESTA?

Ago 18, 2015

Desde que foi criada a Associação Amigos da Grande Idade elegeu como principal objetivo a defesa dos direitos e da representação jurídica das pessoas idosas, como a principal questão do envelhecimento. Sempre entendemos que esta era uma profunda alteração estrutural necessária, na medida em que todos os cuidados, todos os serviços, todas as ofertas teriam que se readaptar, cumprindo maiores exigências e alterando o seu posicionamento em relação às pessoas idosas que necessitam de institucionalização. Andamos há anos a dizer que se fosse levada a sério, a representação jurídica das pessoas idosas, as respostas sociais existentes e os modelos de oferta que desenvolvem, estariam “às moscas”.

É o espezinhamento, o desprezo e a impunidade que marca grande parte das ofertas a pessoas idosas porque o estigma criado é que para pessoas idosas incapacitadas de decisão ou de funcionalidade, tudo serve e todas as atitudes, comportamentos e modelos de intervenção são tolerados.
Quem está neste momento em lares de idosos por vontade própria? Quem assinou algum documento, consciente e no exercício da sua autoridade, para estar num lar de idosos? Quantos?
Mas há mais atropelos: a famigerada lei do direito à herança que continua a permitir que um filho agressor se mantenha como herdeiro.

Também na avaliação dos graus de incapacidade existe um tremendo pantanal. Não estão definidas escalas com rigor científico, os processos levados a cabo são difíceis de perceber, os “internamentos compulsivos” em lares de idosos são permanentes e não sujeitos a qualquer crítica social ou moral.
Bom, este governo, o mesmo que retirou a palavra “legal”, determinando que o contrato com um lar pode ser assinado pelo “representante” e apenas “representante”, veio agora aprovar uma resolução em conselho de ministro que pode alterar tudo. Mas é apenas uma resolução e só na próxima legislatura é que será discutido e aprovado. Boa intenção, mesmo assim…

Uma resolução que prevê finalmente a obrigatoriedade de representação jurídica legalmente tratada para todas as pessoas incapacitadas de decidir por si próprias e de assegurar a decisão sobre a sua vida, seja essa incapacidade mental ou física. Prevemos que seja tido em conta os diversos graus de incapacidade e os limites de decisão do representante legalmente constituído. Se não for assim poderemos ficar na mesma ou ainda pior, que será ter uma lei que aparentemente defende a pessoa idosa e afinal só servirá para justificar a “vigarice legal” em que às vezes somos peritos.

São finalmente criminalizados os atos contra as pessoas idosas, sejam eles de abuso físico, psicológico, económico e social. Criminalizados. Não apenas condenáveis moralmente ou sujeitos a penalizações pouco significativas.
Fala-se mesmo na defesa das pessoas idosas em relação às instituições que trocam bens por cuidados, num negócio obscuro que todos conhecem mas que ninguém enfrenta. Instituições que afinal enriqueceram e sobreviveram não pelos elevados atos sociais que praticaram durante a sua existência mas pelos bens com que foram ficando, património de pessoas que “acolhem”.

Estas alterações envolvem vários ministérios e várias regulamentações, sendo necessário mexer no código civil e no código penal.

A associação Amigos da Grande Idade não mais deixará de seguir este processo. Vamos verificar para quando o agendamento da sua discussão e votação na Assembleia da Republica. Vamos imediatamente pedir posicionamentos aos diversos partidos que se apresentam às eleições de Outubro mas ai contamos com uma disponibilidade total, uma unanimidade completa. Sabemos contudo que tudo isso se esfuma, mal são conhecidos os resultados das eleições mas não iremos deixar de lembrar quem tem a responsabilidade de finalmente dar a primeira pedrada no charco do envelhecimento em Portugal.

Mas como não somos hipócritas nem receamos represálias temos que dizer com frontalidade que a legislatura que agora termina iniciou uma brutal revolução. Silenciosa, é certo, ainda pouco eficaz, mas as sementes estão lançadas e nunca mais esta área será como era há quatro anos atrás: a lei da economia social, as alterações legislativas nos diplomas que determinam a implementação e o funcionamento dos serviços destinados a pessoas idosas (nesta área as alterações foram muito ténues e ficaram muito além do desejável) e agora esta resolução que abre uma porta de esperança para o futuro, mudaram radicalmente o panorama. É agora fundamental aprofundar estas alterações, levá-las a sério e fazer cumprir a legislação. Falta ainda mexer no posicionamento da segurança social e abrir a área a outros modelos de intervenção que tenham em conta que a funcionalidade com vista à felicidade é um dos grandes objetivos dos próximos tempos.

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REVOLUÇÃO! ENORME PASSO PARA A DEFESA DE UM ENVELHECIMENTO MAIS DIGNO EM PORTUGAL!

Ago 18, 2015

A Estratégia Para o Idoso, que prevê a repressão de todas as formas de violência, abuso, exploração ou discriminação e a criminalização do abandono de idosos, foi hoje aprovada em Conselho de Ministros.

Na resolução estão previstas medidas de proteção jurídica às pessoas idosas e em situação de incapacidade, não permitindo que terceiros se aproveitem desta condição.

Entre essas medidas estão o alargamento da indignidade sucessória, não permitindo que nos casos em que o herdeiro pratique algum crime de violência doméstica ou maus tratos, venha a receber a herança do idoso que maltratou.

A estratégia prevê ainda a criminalização de negócios jurídicos feitos em nome do idoso sem o seu pleno conhecimento, indica o Ministério da Justiça em comunicado.

Também devem ser criminalizados os “comportamentos que atentem contra os direitos fundamentais dos idosos”, como negar o acolhimento ou a permanência destes em instituições públicas por recusarem assinar uma procuração para “fins de administração ou disposição dos seus bens ou em efetuar disposição patrimonial a favor da instituição”.

Abandonar idosos em hospitais ou outros estabelecimentos de prestação de cuidados de saúde e impedir ou dificultar o seu acesso à aquisição de bens ou à prestação de serviços devido à idade são outros comportamentos que devem ser criminalizados.

A resolução prevê também a repressão de todas as formas de violência, abuso, exploração ou discriminação, tanto do ponto de vista físico como psicológico.

Defende ainda a constituição como circunstância agravante os crimes de injúria e difamação e do crime de burla que forem dirigidos aos idosos.

O documento observa o crescimento substancial da população idosa em Portugal, que passou de 708.569 idosos em 1960 para 2.010.064 em 2011, e o aumento da esperança de vida aos 65 ou mais anos que era de 13,5 anos em 1970, tendo evoluído para 19,1 anos em 2013.

“A idade avançada tem especificidades, designadamente no plano dos cuidados de saúde, do apoio social e do enquadramento familiar, bem como da tutela jurídica, que devem ser devidamente regulados, em ordem a garantir em todas as fases da vida o respeito pela dignidade da pessoa humana”, defende o Governo.

“Na verdade, os cidadãos idosos estão amiúde expostos a práticas que atentam contra os seus direitos mais elementares, cuja defesa importa assegurar”, sustenta.

A Resolução do Conselho de Ministros defende que a saúde física e mental dos idosos deve ser “objeto de atenção cuidada”, considerando essencial assegurar a manutenção da qualidade de vida dos idosos, especialmente na preservação da sua autonomia.

“Em paralelo, deve garantir-se adequada e proporcional proteção jurídica dos idosos, nos casos em que estes se encontrem em situação de incapacidade, em resultado de limitações congénitas ou adquiridas, e independentemente da sua causa”, acrescenta.

Na Resolução são traçadas as linhas gerais da revisão do Código Civil em matéria de incapacidades, bem como do Código Penal, com vista ao reforço da proteção dos direitos dos idosos.

Estratégia só pode ser aprovada na próxima legislatura

O ministro da Presidência disse hoje que a Estratégia de Proteção ao Idoso só poderá ser aprovada na próxima legislatura, uma vez que exige alterações ao Código Penal, matéria da responsabilidade da Assembleia da República.

“As alterações ao Código Penal são matérias da responsabilidade da Assembleia da República, portanto, a estratégia hoje aprovada elenca todas as medidas trabalhadas com os parceiros deste setor, mas que, agora, terá de ser concretizada, mas na nova AR, após eleições”, disse aos jornalistas Luís Marques Guedes, na conferência de imprensa realizada no final do Conselho de Ministros.

A Estratégia de Proteção Idoso, que prevê a repressão de todas as formas de violência, abuso, exploração ou discriminação e a criminalização do abandono de idosos, foi hoje aprovada em Conselho de Ministros.

O ministro da Presidência, Marques Guedes, adiantou que o Governo decidiu aprovar, sob a forma de resolução, o documento para que o trabalho feito pelo Ministério da Justiça com várias entidades “não ficasse perdido”.

“Toda a documentação está pronta e o novo parlamento, assim que iniciar funções, desde que haja vontade política da maioria que sair das eleições, estará em condições de imediatamente discutir e, querendo, aprovar esta legislação”, sublinhou.

O ministro justificou ainda a não aprovação da legislação com o facto de o parlamento já ter encerrado os seus trabalhos.
“Se o parlamento está fechado, já não há hipótese de a aprovar. O trabalho está concluído para [a estratégia] ser tomada, assim o novo Governo que saia das eleições tenha exatamente as mesmas intenções de criminalizar este tipo de comportamento”, sustentou.

(14/08/2015)NOTICIA PUBLICADA EM http://economico.sapo.pt/noticias/aprovada-criminalizacao-do-abandono-ou-exploracao-de-idosos_226233.html

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Religião e Felicidade

Jul 22, 2015

“Quando pratico o bem, sinto-me bem; quando pratico o mal, sinto-me mal. Eis a minha religião.”

Abraham Lincoln

Para o sofista Protágoras, “dos deuses não posso saber nem se são e nem se não são. Muitos obstáculos se apresentam, a obscuridade do assunto e a brevidade da vida”. Apesar disso, a religião está presente na humanidade desde o princípio dos tempos. “Ópio do povo” para uns – devido ao seu efeito “narcotizante” – crença redentora e fé inquestionável para outros, é invocada constantemente para dar consistência a actos e comportamentos muita vezes “pouco religiosos”. Daí que Sartre tenha afirmado que se Deus criou o homem, ao dotá-lo de livre arbítrio eximiu-se à culpa dos seus actos. Ou seja, o que o homem faz ou não faz é fruto do seu livre arbítrio. Deus não tem culpa do que ele faz em seu nome. Nesta acepção, será que a religiosidade tem implicações na felicidade?

Na confiança parece ter, pois a religiosidade elevada em Portugal, como nos outros países do sul e em alguns pós-comunistas, como a Polónia, países também de baixos níveis de confiança social, não se encontra positivamente correlacionada com os níveis de confiança e de capital social. Fukuyama sustenta mesmo que, a haver alguma relação entre religião e confiança, ela deverá ser negativa e não positiva, tal como se conclui também a partir dos resultados do Inquérito Social Europeu em que nos baseamos para estas crónicas. Segundo o autor: “a religião tem aparentemente efeitos contraditórios na confiança; os fundamentalistas e as pessoas que vão à igreja tendem a ser mais desconfiados do que a média geral”(2) .

As religiões sabe-se, especialmente depois de Durkheim ter escrito “As Formas Elementares da Vida Religiosa”, sempre constituíram um poderoso cimento social. Como mostram muitos estudos, muitas vezes baseados em amostras nacionais, a religião tem uma correlação positiva, embora fraca, com o bem-estar subjectivo. É importante saber, no entanto, o que se entende por religião, nesses estudos. Uns centram-se na crença religiosa, outros na prática, outros ainda, no apoio social concedido por confissões religiosas, seitas, etc., com níveis de correlação diversos, sugerindo-se que os benefícios da religião são principalmente cognitivos, ao proporcionarem um quadro interpretativo pelo qual se pode dar sentido às experiências de vida dos indivíduos. Mas é um facto comprovado em diversos estudos, que a religiosidade se correlaciona mais com o bem-estar subjectivo em sociedades religiosas, o que aponta para o efeito de “cimento social”. No entanto, também se tem encontrado evidência empírica na observação de efeitos negativos da religião no bem-estar subjectivo, devido ao sentimento de “culpa” que é apanágio de algumas religiões. No caso da religião católica, a expiação do “pecado original” é disso exemplo.

Com base nos dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu, é possível construir um “índice de religiosidade” com base nos seguintes indicadores: “pertença a uma religião”, “sentimento religioso” “participação no culto” e “frequência de oração/meditação”. A figura seguinte mostra a relação entre este índice e a felicidade:

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Os resultados são, no mínimo, curiosos: os países mais felizes são, na maior parte, os menos religiosos. Portugal situa-se no quadrante dos mais religiosos e menos felizes, acompanhado da Itália, Grécia e maior parte dos países pós-comunistas. Portugal não gosta de se comparar com a Espanha e não com a Grécia mas, no que se refer à Felicidade e Religiosidade, os dados não mentem. Os nossos vizinhos incluem-se no quadrante dos mais felizes e menos religiosos. Sejam felizes, busquem a vossa felicidade.

Publicada em 04-07-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 24

http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=de5226da4d16185ef618de5c40ef3dfa%2624567%26CLT0%26TMP1000090 9%2620150704

Autor: Rui Brites – Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

(2) Fukuyama, cit. por Teixeira Fernandes.

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