Além das Luzes: A Realidade dos Idosos e Profissionais

Dez 22, 2025

Natal é, para muitos, o momento mais aguardado do ano. É um período em que a sociedade celebra a proximidade, o afeto e a união familiar. Nas páginas das revistas e nos planos de atividades das instituições, o Natal aparece sempre associado a decorações, eventos lúdicos e jantares festivos. Contudo, a realidade vivida nos serviços de cuidados continuados, nas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) e nos hospitais mostra um cenário bem diferente. Enquanto profissional , tenho tido a responsabilidade diária de observar aquilo que a maioria dos planos não regista: a solidão persistente dos idosos, a insuficiência de respostas sociais e a sobrecarga profunda das equipas profissionais.

A solidão entre os idosos é um problema estrutural, muitas vezes camuflado por programas festivos que, apesar de bem-intencionados, não tratam das causas subjacentes. Estudos internacionais apontam que uma proporção elevada de residentes em lares e unidades de cuidados apresenta níveis significativos de solidão, sendo esta mais frequente entre os que vivem em instituições do que entre aqueles que vivem na comunidade. Evidências sugerem que cerca de 61% dos idosos em residências de cuidados enfrentam solidão moderada, e cerca de 35% apresentam solidão severa, níveis superiores aos observados em idosos que vivem fora de instituições.

No contexto português, inquéritos e relatórios indicam que dezenas de milhares de idosos residem isolados em casa, sem rede social de suporte imediata .

Esta realidade não é um fenómeno isolado; é um sintoma de uma sociedade que envelhece rapidamente, com menos familiares disponíveis para prestar cuidados informais e com mecanismos formais de apoio insuficientes para preencher essa lacuna .

Portugal enfrenta um dos mais acentuados padrões de envelhecimento demográfico da Europa. A proporção de pessoas com 65 ou mais anos situase em torno dos 24% da população, com uma tendência crescente que se prolongará nas próximas décadas .

Este envelhecimento acentuado aumenta a pressão sobre as ERPI e os serviços de saúde, uma vez que a prevalência de doenças crónicas, dependência funcional e necessidade de cuidados paliativos aumenta com a idade .

Apesar desta realidade demográfica evidente, as políticas públicas e o financiamento destinados aos cuidados de longa duração permanecem aquém do necessário. Portugal investe em cuidados de longa duração uma fração do que outros países europeus dedicam, com despesa pública comparativamente baixa e cobertura reduzida de serviços formais de apoio domiciliário e institucional. Menos de 13% dos idosos têm acesso a apoios profissionais regulares, seja em casa ou em ERPI, e a rede de cuidados continuados é claramente insuficiente face às necessidades da população. Esta insuficiência estrutural traduzse em filas de espera longas, em respostas aquém da procura e em muitas famílias incapazes de garantir aos seus entes queridos o cuidado que estes requerem.

A sobrecarga das equipas profissionais em ERPI e hospitais é outra face desta crise. Os rátios de pessoal previstos na regulamentação portuguesa foram desenhados para contextos demográficos e clínicos diferentes dos que enfrentamos hoje. Embora exista legislação que defina indicadores de pessoal para apoio domiciliário e instituições (como um enfermeiro por cada 20 residentes e assistentes por cada cinco residentes nos casos de dependência elevada) , esses rátios não acompanham a realidade prática: a complexidade clínica dos utentes aumentou, a deterioração funcional é mais prevalente e as equipas permanecem reduzidas e sem reforço adequado. Ao nível internacional, dados da OCDE mostram que Portugal tem um dos menores números de trabalhadores de cuidados de longa duração por cada 100 pessoas com 65 ou mais anos, situandose muito abaixo da média de países comparáveis .

O impacto disto é evidente no dia a dia das instituições. Profissionais esgotados, respostas que priorizam a sobrevivência em detrimento do cuidado individualizado e uma tendência para a institucionalização de rotinas em vez de práticas humanizadas. A humanitude conceito que reconhece a pessoa como sujeito completo, com história, necessidades emocionais e potencial de agência é frequentemente reduzida a um conceito abstrato ou a um evento sazonal que se vive apenas no Natal.

A reflexão crítica que proponho não é uma crítica ao esforço individual dos profissionais, nem uma negação das atividades festivas que são organizadas. Tratase de identificar que decorar a instituição para o Natal e organizar um jantar festivo não resolve o isolamento, não altera os determinantes sociais da solidão e não compensa a falta de investimento estrutural em respostas sociais e políticas públicas adequadas. O Natal pode ser um estímulo para refletir sobre aquilo que fazemos nos restantes 364 dias do ano: como estruturamos as políticas de envelhecimento, como apoiamos as famílias e como valorizamos as equipas que constituem a espinha dorsal dos cuidados de longa duração.

A responsabilidade não é apenas institucional ou profissional; é social e política. É urgente que as políticas públicas em Portugal reconheçam o envelhecimento como prioridade estratégica, com financiamento adequado, expansão de serviços formais de cuidados, resposta às desigualdades regionais e socioeconómicas e reconhecimento do papel central dos cuidadores informais. É preciso investir em formação especializada, revisão dos rátios de pessoal e medidas que promovam envelhecimento ativo, participação social e bemestar emocional dos idosos.

Celebrar o Natal não deve ser um exercício simbólico. Deve ser uma oportunidade para refletir sobre as lacunas estruturais que perpetuam a solidão, a falta de respostas e a sobrecarga das equipas, e para agir de forma a garantir que cada idoso e cada profissional seja valorizado, visto e apoiado durante todo o ano. Porque envelhecer com dignidade não é um slogan, é uma exigência ética e social que ultrapassa o brilho das luzes natalícias e que exige intervenção política, compromisso coletivo e transformação concreta das respostas de cuidado.

Nenhuma luz é suficiente se utentes continuarem sós e profissionais exaustos; a verdadeira magia do Natal é o cuidado compartilhado.

João Pedro Sá

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Dia Internacional do Idoso

Out 1, 2025
Dia Internacional do Idoso

Chega o Dia Internacional do Idoso e, inevitavelmente, voltamos a olhar para aqueles que, tantas vezes, são esquecidos na azáfama do quotidiano: os nossos pais, os nossos avós, os nossos mestres de vida.

Trabalhar com pessoas idosas há tantos anos ensinou-me algo fundamental o envelhecimento é, acima de tudo, uma história de relações humanas. São os olhares, as mãos que tremem, as memórias partilhadas e a necessidade de ser ouvido que dão sentido a cada dia. E, ainda assim, continuamos a viver numa sociedade que fala muito sobre os idosos, mas que, tantas vezes, os ouve pouco.

Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa. Este facto, por si só, deveria ser suficiente para colocar o envelhecimento no centro das políticas públicas e, em especial, das políticas locais. As autarquias têm um papel decisivo na forma como cuidamos, acolhemos e incluímos as pessoas idosas. São os municípios que podem transformar realidades, criar respostas inovadoras e dar voz a quem vive, tantas vezes, em silêncio.

Mas para isso é preciso mais do que boas intenções. É preciso visão, compromisso e coragem política.
É preciso compreender que envelhecer com dignidade não se resume a garantir um lar ou uma cama hospitalar. É sobre promover autonomia, criar redes de proximidade, valorizar os cuidadores e respeitar o tempo de cada pessoa. É sobre dar oportunidades para continuar a participar, a decidir, a pertencer.

Hoje, quando atravessamos um novo ciclo de eleições autárquicas, acredito que é o momento certo para exigir um compromisso sério com o envelhecimento digno e ativo. Precisamos de autarquias que olhem para o idoso não como um custo, mas como um investimento. Que apostem em políticas intergeracionais, em serviços de proximidade, em habitação adaptada, em mobilidade acessível e em espaços de convivência onde a solidão deixe de ser regra e passe a ser exceção.

Trabalhar com idosos ensinou-me que cada rugas conta uma história, que cada silêncio traz uma lição e que cada sorriso conquistado vale mais do que qualquer estatística.
O Dia Internacional do Idoso não deve ser apenas um marco no calendário. Deve ser um apelo à consciência coletiva, uma oportunidade para pensarmos se estamos a construir a sociedade onde queremos envelhecer.

E não posso deixar de pensar na minha querida avó Teresa mulher de força e ternura, que me ensinou o valor da paciência, da simplicidade e do amor genuíno. É nela, e em tantos outros como ela, que encontro o verdadeiro significado da palavra dignidade. Pessoas que viveram com pouco, deram muito e, mesmo no silêncio, deixaram uma herança de humanidade que nenhuma geração deveria esquecer.O Dia Internacional do Idoso não deve ser apenas um marco no calendário. Deve ser um apelo à consciência coletiva, uma oportunidade para pensarmos se estamos a construir a sociedade onde queremos envelhecer.Porque, mais cedo ou mais tarde, todos seremos o “idoso” de alguém.

E o modo como cuidamos hoje dos nossos idosos é, inevitavelmente, o espelho do futuro que nos espera.

João Pedro Sá

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Declaração da AAGI

Set 30, 2025

A Associação Amigos da Grande Idade declara a reativação total da sua atividade a 1 de Outubro de 2025, após 2 anos de paragem, motivada por dificuldades em garantir a sua sustentabilidade financeira pós COVID mantendo a sua independência e liberdade em relação a qualquer apoio externo.
Continuando com a forte convicção de que é possível ter um envelhecimento mais digno e respeitado, dirigirá sua maior atenção para o envelhecimento institucionalizado, o envelhecimento esquecido e escondido por trás de muro raramente abertos às pessoas e no interior dos quais se dão os acontecimentos mais violentos e mais graves contra pessoas idosas fragilizadas. O envelhecimento de quem ninguém quer falar porque é desconfortável dada a responsabilidade de todos os cidadãos sobre as práticas e o modelo atual.
Mas pretende-se também continuar a desenvolver a paixão que temos pela reflexão, procura de conhecimento e formação, reativando as nossas proposta de cursos, workshops, eventos diversos e a Pós-Graduação, que mudou a face da formação em Portugal e motivou mais de uma dezena de entidades a reproduzirem esse modelo.
Daremos seguimento decerto a incomodar o poder junto das principais entidades nacionais e do conjunto dos Partidos Políticos que, no nosso País, determinam a nossa vida.
Vamos reativar a nossa atividade com toda a energia, com uma profunda remodelação dos nossos quadros de recursos humanos, alargando-os sem reservas, preconceitos ou invejas tão próprias da nossa sociedade. Todos somos bons e importantes para mudar uma área cuja nossa vida vai atravessar.
Estamos vivos: mais velhos, mas vivos.

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Roubo a idosos

Set 30, 2025
Roubo a idosos

É urgente e inadiável a revisão das penas de prisão aplicadas a crimes cometidos contra idosos vulneráveis. Casos como este que veio agora a público, em que indivíduos se fazem passar por profissionais de saúde para enganar, explorar e roubar idosos, representam um nível de crueldade que não pode ser tolerado numa sociedade civilizada.
Estes crimes não são meros furtos são agressões profundas à integridade, confiança e segurança de pessoas muitas vezes indefesas que depositam total confiança em quem acreditam estar ali para cuidar delas, não posso deixar de expressar a minha profunda indignação perante situações como esta, em que indivíduos se fazem passar por profissionais de saúde ou assistentes sociais para explorar e lesar os nossos cidadãos mais vulneráveis. A confiança depositada nos profissionais de saúde e sociais é um pilar essencial do sistema, construído ao longo de décadas com base na ética, no cuidado e no respeito. Utilizar esse símbolo a bata branca para cometer crimes é uma perversão inaceitável do que essa indumentária representa.
Defendo o agravamento significativo das penas nestes casos, com a possibilidade de a pena máxima passar para 50 anos, especialmente quando existe dolo, premeditação e abuso de confiança sobre populações frágeis. A justiça deve ser não apenas punitiva, mas também pedagógica, deixando uma mensagem clara: quem atenta contra os mais vulneráveis enfrentará consequências severas e proporcionais à gravidade do ato cometido
É tempo de agir com firmeza, protegendo quem mais precisa e garantindo que os símbolos da saúde e do cuidado jamais sejam usados como ferramentas de manipulação e crime.

João Pedro Sá

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Delegação AAGI em Sesimbra

Set 30, 2025

A Associação iniciou em final de 2022 um trabalho de consultoria à Residência Sénior Egas Moniz, situada na Maça-Sampaio, concelho de Sesimbra.

Este trabalho é consequência de uma parceria com a E.M. Estruturas Sociais unip. Lda, que é a detentora da Residência e pertence à Universidade Egas Moniz School Health Science.

A parceria inclui a possibilidade de utilização da Residência como local de estágio e formação, bem como o desenvolvimento de trabalhos científicos e projetos diversos na área do envelhecimento e longevidade.

Desta forma decidimos abrir em Sesimbra uma delegação constituída por uma equipa de trabalho que forma a organização administrativa da delegação.

Temos muita expectativa no trabalho que se poderá desenvolver nesta delegação, existindo já alguns projetos em marcha utilizando a parceria existente entre as entidades.

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