“Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade”
Almada Negreiros
O conceito de cidadania, que remonta à polis grega, remete tanto para a normatividade como para a participação política e social. Associado aos debates sobre a emergência acentuada do individualismo nas sociedades democráticas, assume particular importância perceber quais os valores de cidadania a que os cidadãos dão predominância. Nos dados recolhidos pelo Inquérito Social Europeu2 , sobre o que é que os europeus consideram ser importante para se ser um bom cidadão, os portugueses consideraram muito importante, por esta ordem:
1º “Ter opinião própria independentemente da opinião dos outros” (85,2%);
2º “Ajudar os que estão em pior situação” (85,1%)
3º “Obedecer a todas as leis e regulamentos” (70,9%);
4º “Votar sempre nas eleições” (64,5%);
5º “Trabalhar em organizações de voluntariado“ (53,2%);
6º “Ser uma pessoa politicamente activa” (38,1%).
O padrão de resposta aos seis indicadores é idêntico em todos os países e o Índice sintético de cidadania, que agrega a resposta conjunta aos seis indicadores, coloca Portugal entre os países europeus com pontuações mais elevadas, registando a Espanha, a Bélgica e a República Checa, as mais baixas.
Entre nós, é na região Centro que se regista o valor mais elevado e no Algarve, o mais baixo. Os mais velhos, homens e mulheres, com mais de 50 anos são, também, os que apresentam valores mais elevados do índice de cidadania.
Portugal está entre os países europeus que mais concordam que os “cidadãos deviam ocupar pelo menos algum do seu tempo livre a ajudar os outros” (86,4%)3 . Não obstante, os portugueses são os que mais dizem que “não ajudaram ninguém nos últimos seis meses” (61,5%)4 . Ou seja, invocando o célebre aforismo: “bem prega Frei Tomás: faz o que eu digo, não faças o que eu faço!”. É em Lisboa e Vale do Tejo que a colaboração com organizações de voluntariado e de caridade é mais elevada, no entanto, quando se trata de ajudar activamente alguém, são os algarvios que mais dizem que o fazem regularmente (31,7%).
É interessante verificar a relação entre a importância atribuída aos valores de cidadania e a felicidade:
Importância dada à Cidadania e Felicidade na Europa
Como evidencia a figura, Portugal situa-se no quadrante “+Cidadania e – Felicidade”, acompanhado pela Itália, Grécia e Polónia. No quadrante dos países “mais felizes” e que dão mais “importância à cidadania”, encontram-se os países escandinavos e o Luxemburgo. Como vimos nas crónicas anteriores, os países escandinavos, para além de registarem os valores mais elevados de felicidade, são também mais confiantes e mais optimistas. Sejam felizes, busquem a vossa felicidade.
Publicada em 01-06-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 25
http://www.asbeiras.pt/2015/06/opiniao-felicidade-e-cidadania/






Como se pode observar, entre os 30 países analisados, os portugueses são os que mais afirmam que não se interessam pela política (39%) contra os 19% do total. O ditado popular “a minha política é o trabalho”, parece ter uma ancoragem forte em Portugal, onde aliás, uma expressão equivalente, ganhou um inusitado mediatismo quando o Primeiro-ministro na altura – Cavaco Silva –, solicitado a pronunciar-se sobre a Política nacional, então relativamente “turbulenta”, terá respondido: “deixem-me trabalhar”, entendido pela opinião pública “publicada” como querendo dizer, precisamente, que a sua política era o trabalho. A posição relativa de Portugal no contexto europeu deve ser um motivo de preocupação e de chamada de atenção para o poder político, pois se juntarmos a estes resultados a confiança nas instituições políticas, vemos que Portugal também se destaca por ser um dos países com as taxas mais elevadas de desconfiança. Confiam apenas moderadamente na Polícia (5,2) e desconfiam da Assembleia da República (3,4) e da Justiça (3,8). Os Políticos (2,2) e os Partidos políticos (2,1) merecem níveis de desconfiança bastante elevados. Estes valores contrastam, claramente, com os níveis de confiança institucional dos cidadãos dos países escandinavos, mais confiantes mas também, como vimos na figura anterior, mais interessados pela política:





