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Felicidade e Optimismo

Mai 18, 2015

“[cada um vive] para a satisfação imediata, mas, ao mesmo tempo, vive para uma sociedade hedonista pura. As pessoas querem essa satisfação, mas, ao mesmo tempo, vivem extremamente inquietas quanto ao futuro, com medo do desemprego. Porque a globalização fomenta estes medos. As pessoas estão preocupadas com as suas reformas”.

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Num estudo muito citado publicado no Psychological Bulletin em 1967, Warner Wilson concluíu que as pessoas mais optimistas, entendendo-se o optimismo como tendência generalizada para esperar resultados favoráveis, são as que mais facilmente estabelecem metas que actuam como normas ou aspirações, cujo grau de consecução influencia o bem-estar subjectivo. Como disse Churchill: “o pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o optimista vê oportunidade em cada dificuldade”.

A busca da felicidade é um objectivo optimista que coloca nos ombros dos indivíduos a responsabilidade de serem felizes. O papel da “divina providência” nesse empreendimento, invocado pelos crentes, parece ser diminuto, pois a religião, tem um impacto diminuto nesse desígnio, dando razão a Sartre quando afirmava, e cito de memória, que Deus criou o homem mas, ao dotá-lo de livre-arbítrio, eximiu-se à responsabilidade pelo seu destino. A busca da felicidade é um projecto de vida e a vida, como disse John Lennon, “é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro”.

Nesta perspectiva, será que há relação entre a felicidade e o optimismo? Serão os países com níveis de felicidade mais elevados também mais optimistas ou vice-versa? Na figura seguinte, que mostra essa relação, podemos observar que a correlação é positiva – quanto mais optimista, mais feliz – e que Portugal se situa no quadrante dos menos felizes e menos optimistas. Note-se o caso particular da Ucrânia que regista níveis de felicidade inferiores à média e de optimismo superiores. Os desenvolvimentos posteriores a 2012, certamente, já terão alterado esta relação.

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A tendência é para que os países “mais felizes”, com a Escandinávia em destaque, sejam, também, mais optimistas relativamente ao futuro. Tal como na confiança, que vimos em crónica anterior, Portugal regista valores de que não nos podemos orgulhar. Será um atavismo dos portugueses ou é uma situação meramente conjuntural? O “mal” parece antigo, a fazer fé neste excerto de Pátria, escrito por Guerra Junqueiro há mais de 100 anos (1896): “um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo […] um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai […] Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter”.

Apesar disso, sejamos optimistas pois, como disse Fernando Pessoa através de Bernardo Soares, “Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for”. É urgente “torcer o destino”, como canta Sérgio Godinho. Sejam felizes, busquem a vossa felicidade.

Publicada em 08-05-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 16

http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=9608bc9db0aa1ccf316a82194ab4b504%2624567%26CLT0%26TMP10000909%2620150508

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Felicidade e Escolaridade: estudar compensa

Abr 21, 2015

“Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda.”

Paulo Freire

Embora a escolaridade não seja sinónimo de educação, uma e outra estão estreitamente ligadas, como se sabe. Mais escolaridade pressupõe mais informação e, por conseguinte, mais exigência, quer nos objectivos pessoais, quer na vida em sociedade. Dito de outra forma, as pessoas mais informadas têm maior consciência dos seus limites, sabem mais que nada sabem, parafraseando a frase célebre atribuída a Sócrates, para quem a ignorância era a fronteira do saber e, por conseguinte, quanto maior o saber, maior a ignorância. Nesta perspectiva, a correlação entre a felicidade e a escolaridade deveria apresentar-se como negativa. Mas não é isso que acontece, como mostra a figura seguinte, que correlaciona a felicidade e a escolaridade:

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A correlação é positiva e, embora seja estatisticamente significativa, é baixa. Tal devese, como revelam os dados que falam por si, ao facto de nem todos os países com média elevada de escolaridade, registarem níveis elevados de felicidade. No entanto, os países “mais felizes” registam, também níveis médios de escolaridade mais elevados.

Como motivo de apreensão dos portugueses, atente-se na posição “isolada” de Portugal. Estando entre os países com um nível de felicidade declarada mais baixa, tendo atrás de si apenas a Grécia, a Hungria, a Ucrânia e a Bulgária, é o país com a média mais baixa de anos de escolaridade concluídos, sendo mesmo o único, entre os 30, com média inferior a 10 anos, quando o valor médio do conjunto é de cerca de 12 anos. Apesar da “paixão pela educação” que caracterizou o consulado de Guterres, o desnível é ainda muito acentuado e a baixa escolaridade não será, certamente, alheia a uma “certa maneira de ser português”, de que a frase “salazarenta” “pobretes mas alegretes” é um exemplo.

Embora, como alguém disse, a estatística seja a forma mais credível de mentir, ajudanos a compreender melhor a realidade, a colocar interrogações e a procurar respostas. É o caso. A baixa correlação entre Felicidade e Escolaridade revela que entre uma e outra há “mediadores” que convém ter presentes. Não nos sendo possível desenvolver aqui pormenorizadamente a sua análise, que será tema das próximas crónicas, saliento apenas que as classes sociais com mais recursos qualificacionais (profissionais e académicos) são as que registam níveis médios de felicidade declarada mais elevados. Também acontece o mesmo com as pessoas cujo rendimento disponível lhes permite viverem confortavelmente, 8,8 (felicidade elevada) contra os 5,3 (felicidade moderada) dos que vivem com dificuldades A média de anos de escolaridade das primeiras, é superior a 13 anos, sendo apenas de cerca de 10 anos entre as últimas. O subtítulo desta crónica – estudar compensa – está assim justificado.

Sejam felizes, busquem a felicidade.

Publicada em 01-04-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 23
http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=6587c3aa14bf96bab58b53baba0783f7%2624567%26CLT0%26TMP10000909%2620150401

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Felicidade e Confiança: uma relação virtuosa

Abr 21, 2015

“La confiance que l’on a en soi fait naître la plus grande partie de celle que l’on a aux autres”

La Rochefoucauld

Parafraseando La Rochefoucauld, a falta de confiança no próprio conduz à falta de confiança nos outros. Enquanto “cimento social”, a confiança está na base das sociedades mais prósperas e desenvolvidas. Como têm sublinhado diversos autores, quanto mais as pessoas confiarem, mais colaboram e cooperam entre si e mais fortes são as instituições sociais da sociedade civil. Ao invés, quanto menos os cidadãos confiarem no seu Governo e nas instituições políticas governamentais, menos eficiente será o desempenho do país, com os consequentes reflexos na qualidade de democracia.

A falta de confiança, como se sabe, reflecte-se no reforço de medidas de autoprotecção que, quando têm como alvo os outros, especialmente quando são estrangeiros, conduz ao exacerbamento da xenofobia que neste início do século XXI, com o agravar da crise económica, tem recrudescido na Europa, com alguns países a quererem repor os controlos fronteiriço de pessoas, contrariando o acordo de Schengen. As sociedades mais confiantes são também as mais tolerantes e solidárias e são também aquelas que, na acepção de Putnam, dispõem de mais “capital social”, que é uma consequência de um processo cultural de longo prazo. Em contrapartida, como enfatiza Fukuyama, “se as pessoas não confiam umas nas outras, acabam por só cooperar quando submetidas a um sistema formal de regras e regulamentos, o qual tem de ser negociado, acordado, discutido judicialmente e algumas vezes aplicado por meios coercivos. Ao mesmo tempo, A falta de confiança, também designada na linguagem comum por desconfiança, torna-se um elemento constrangedor da cidadania e, por consequência, do desenvolvimento económico e social. Como bem notou Francis Bacon nos seus Ensaios: “as suspeitas impelem os reis à tirania, os maridos ao ciúme, os sábios à irresolução e à melancolia. São fraquezas não do coração, mas do cérebro” […] O que leva o homem a suspeitar muito é o saber pouco; por isso os homens deveriam dar remédio às suspeitas procurando saber mais, em vez de se
deixarem sufocar por elas”

A desconfiança torna, por conseguinte, as relações sociais mais conflituosas e as pessoas menos felizes, como se observa na figura seguinte:

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Portugal encontra-se entre os países que se sentem menos felizes e menos confiantes.

Publicada em 26-02-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 17
http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=0017b5a056ea1a3c691412e6fe8989ca%2624567
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A felicidade tem idade?

Abr 21, 2015

Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o milénio é outro, se a
idade aumenta; conserve a vontade de viver, não se chega a parte alguma sem ela

Fernando Pessoa, “O mais é nada”

A busca ancestral da “fonte da eterna juventude” teve sempre subjacente a ideia de contrariar o tempo vivido e tornar a juventude eterna. Mas como nunca passou disso – uma busca – uma vez não podemos contrariar o envelhecimento, evitemos ser velhos, pois envelhecer é um privilégio e a alternativa não é algo que se recomende.

Mas será que a idade afecta a nossa percepção de felicidade? E se afecta, como é que afecta?

Um estudo para a Samsung realizado no Reino Unido, em que foram inquiridos 2000 britânicos, mostrou que é aos 35 anos que as pessoas são menos felizes, devido ao stress provocado pelo equilíbrio entre a vida familiar e profissional, nomeadamente no que se refere à criação dos filhos e à progressão na carreira. Ao invés, mostrou também e que é aos 58 anos que as pessoas estão mais satisfeitas com a vida. Embora a “credibilidade científica” destes estudos ofereça muitas reservas, os resultados não surpreendem, pois nesta idade, ao mesmo tempo que diminui a preocupação com a carreira e os cuidados a prestar aos filhos, sobra, mais tempo para o lazer e os amigos. Como notou Bertrand Russel, “o gosto de viver é o segredo da felicidade e do bem-estar”.

Mas a relação entre idade e a felicidade não é a mesma entre os chamados “países ricos” e em Portugal pois, como tem sido demonstrado em muitos estudos neste domínio: “a satisfação das necessidades causa felicidade, enquanto a persistência da sua insatisfação causa infelicidade”. Os portugueses têm mais dificuldade em satisfazer as suas necessidades, como se sabe.

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Fonte: Inquérito Social Europeu (ESS), 2002 a 2010

Como se observa, a idade parece não ter qualquer impacto na percepção da felicidade na Escandinávia – os países mais felizes da Europa – mas o mesmo não se pode dizer em Portugal onde, sendo menor em todas as fases da vida, decresce com a idade e mais acentuadamente, a partir do fim da chamada vida activa. A esse facto não é alheio que o impacto mais negativo na felicidade seja o sentimento de insegurança económica (medo de não ter dinheiro suficiente para, no futuro, fazer face às necessidades) e mais positivos o nível/qualidade de vida e a saúde. O seguinte quadro, que mostra os contrastes neste domínio, em Portugal e a Escandinávia, permite perceber melhor porque é que os portugueses se avaliam como menos felizes e os mais velhos, ainda menos:

opfig2

Em conclusão, podemos dizer que a felicidade continua a dar sentido à vida humana,
como disse Platão, e isso acontece em todas as idades. Não obstante, como observou
Amartya Sen: “o rabugento homem rico poderá muito bem ser menos feliz do que o
resignado camponês, mas a verdade é que tem um padrão de vida mais elevado do
que ele”. Como diz o povo: é melhor ser rico e ter saúde do que ser pobre e doente.
Comparados com os escandinavos, parece que os portugueses se sentem menos
felizes porque, ao contrário do que é dito pelo governo e ampliado pela comunicação
social, vivem… abaixo das suas necessidades.
Sejam felizes.

Publicada em 26-02-2015 | Diário as beiras: http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=a9f9f78f4b528e6a2f9cfbdd8451cccc%2624567%2
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AI VEM DINHEIRO…

Mar 25, 2015

Vem ai 25 mil milhões de euros. Trata-se, provavelmente, da última oportunidade para Portugal ficar mais próximo de países europeus com maiores índices de desenvolvimento.
O sector social é, mais uma vez, uma das áreas privilegiadas. Ao todo são cerca de 16 programas destinados a estes sector e dentro dele, estima-se que mais de metade das verbas sejam destinadas ao terceiro sector. Acresce que cerca de 40 por cento dos fundos vão ser geridos regionalmente e destes muitos serão também atribuídos a Instituições e entidades sociais.
Já não somos nós, quase solitariamente, que alertamos para a necessidade de alterar alguns procedimentos. O jornal “solidariedade” mostra-se preocupado com a utilização deste dinheiro, referindo que são necessários “novos conceitos” e obrigatório “pensar diferente”.
Pois é.
A Associação continua com a esperança de que o modelo de financiamento na área social altere significativamente. É necessário mais rigor e mais pragmatismo, investindo nas reais necessidades, avaliando esse investimento e medindo o desempenho, motivando os melhores e obrigando os piores e os razoáveis a acompanharem a evolução dos tempos. É fundamental perceber-se que, na área do envelhecimento temos que percorrer o caminho da prevenção que foi imposto na área materno-infantil nos remotos anos 70 e 80 e que colocou o País, nessa área, ao nível dos melhores do mundo.
Não podemos continuar a favorecer a doença e a disfuncionalidade, num modelo em que só financiamos as pessoas idosas quando já estão dependentes e que aumentamos esse benefício em função de maior dependência. É tempo de arrepiarmos caminho e por cada cama que se subsidie de uma instituição seja obrigatório apoiar financeiramente a manutenção de meia dúzia de pessoas nas suas habitações e nas suas comunidades.
E por favor, definitivamente, que atribuam uma percentagem para ser gasta obrigatoriamente na formação das pessoas que exercem actividades na área do envelhecimento. Formação ajustada e adequada e não formação para subsidiar vícios, más práticas e suspeitas de utilização indevida de fundos.

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INTERVENÇÃO DO PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO NO XXIV CONGRESSO DA PROSALIS. LISBOA

Fev 2, 2015

“APONTAMENTOS SOBRE ENVELHECIMENTO E FAMILIA”

Em primeiro lugar agradeço à organização na pessoa da Dr.ª Maria Helena Paes. Cumprimentar também os ilustres elementos da Mesa com uma dedicatória especial para o Professor Adriano Moreira que há poucos dias nos deu a honra de contarmos com a sua presença numa importante iniciativa da Associação Amigos da Grande Idade na Assembleia da Republica, tornando-se mais um amigo desta pequena mas convicta Associação. Cumprimentar ainda todos os presentes e apelar desde já à sua paciência para me ouvirem.

A Associação Amigos da Grande Idade é uma entidade sem fins lucrativos e sustentável pelos seus próprios meios, recusando qualquer apoio oficial formal ou informal dos quais nos habituámos a depender que não é mais que conceder. Somos um conjunto de pessoas que exerce a sua cidadania e que desenvolve actividades em quatro pilares fundamentais: a Formação, onde temos já hoje um papel importante sendo detentores da competência de desenvolvermos um Curso de Gestão Organizacional de Lares e Casas de Repouso que vai já na sua 32ª Edição e que tem lugar periodicamente em várias cidades do País, uma Pós Graduação em Gestão de Equipamentos destinados a Pessoas Idosas, única do género e concebida exclusivamente para responder às principais necessidades dos dirigentes associativos sociais, dos diretores técnicos e de outros colaboradores de instituições e entidades que se dedicam à prestação de cuidados e oferta de serviços a Pessoas Idosas e vários workshops de diversos temas relacionados com o envelhecimento e a longevidade. Outro pilar é a Investigação: somos uma plataforma de apoio a trabalhos de licenciatura, mestrado e doutoramento, acompanhando os mesmos, orientando alguns e divulgando todos através dos nossos meios. A Influência é também um dos nossos pilares de desenvolvimento. Temos tido o privilégio de chegar a muitas entidades oficiais por via formal onde temos apresentado as nossas preocupações. Frequentamos habitualmente a Assembleia da República tendo hoje amigos interlocutores em todos os grupos parlamentares excluindo o Partido Comunista Português e os Verdes. Conseguimos a divulgação/emissão de vários documentos estratégicos e a sua distribuição por canais de importante influência nacional. Temos tido também a honra de dialogar com inúmeras personalidades que desenvolvem actividades relevantes nas áreas da investigação, dos média e da atividade política nacional. Por último desenvolvemos muita atividade na área da Divulgação através de uma revista cientifica on-line que está já indexada a várias bases de dados nacionais e internacionais, emitindo documentos sobre variadíssimos assuntos relacionados com o envelhecimento e através da organização de grandes eventos de impacto nacional como foram já os Congressos Internacional do Envelhecimento, o Congresso Nacional da Grande Idade e as Recomendações para a Longevidade, esta ultima realizada na Assembleia da Republica. Para além destas organizações temos vindo a realizar dezenas de eventos de menor dimensão em parceria com várias entidades, destacando-se as organizações com as Camaras Municipais por todo o país.

A Associação ultrapassou assim todas as nossas melhores expectativas e sendo muito jovem em idade marca já a área da reflexão e pensamento sobre o envelhecimento e longevidade em Portugal, sendo praticamente incontornável quando se discutem assuntos nestas áreas.

Vivemos hoje numa sociedade em que o envelhecimento é imparável e ainda bem. Trata-se de uma enorme conquista da humanidade fazendo-nos viver muito mais anos do que vivíamos há anos atrás. Mas esta conquista levanta alguns problemas, sendo o maior de todos a nossa incompetência para impedir ou mesmo atenuar a forma doente como se envelhece nos últimos anos de vida, não conseguindo que esses anos, em Portugal, deixem de ser anos de forte dependência, disfuncionalidade, doença e infelicidade.

Mas se o envelhecimento é imparável e não depende de um ou outro homem, uma ou outra instituição, um ou outro governo, tendo-se tornado um fenómeno universal e já atingido até países menos desenvolvidos, já a dependência, a disfuncionalidade, a doença e a infelicidade, muito dependem dos homens, das instituições e das políticas.

Vivemos tanto em Portugal como nos outros países mais desenvolvidos. Temos mesmo indicadores muito próximos dos países mais ricos do mundo no que respeita á longevidade. Somos contudo mais dependentes, em muitos anos. Anos que significam mais custos, mais dificuldades mas acima de tudo mais infelicidade e por vezes, indignidade.

Temos pois de mudar o paradigma: o envelhecimento não precisa tanto de cuidados de saude e até sociais como temos desenvolvido no atual modelo mas necessita essencialmente de educação, formação e prevenção. Uma pessoa que saiba envelhecer é mais feliz nesse processo, uma Instituição que saiba prevenir os incidentes mais comuns do envelhecimento é uma instituição de maior qualidade. Um País que saiba intervir nos processos preventivos é uns pais mais desenvolvido e onde se envelhece melhor. Chega de investir em superestruturas para tratar das doenças do envelhecimento e chegou o momento de investirmos em modelos para promover um envelhecimento mais feliz.

Para o envelhecimento temos respondido com Instituições Sociais, criadas com a missão de responderem às carências, às fragilidades mais evidentes através de um modelo de caridade e de assistência. Criámos lares, centros de dia e cuidados domiciliários na perspetiva de diminuirmos a desgraça. Locais para onde ninguém quer ir de livre vontade e perante novas necessidades (aumento da esperança de vida, maior exigência das pessoas, aumento de direitos e liberdades, aparecimento de novos grupos corporativos e sociais com características específicas diferenciadas) ficámos pelo mesmo modelo, entendendo e insistindo em que todos os velhos são iguais, carenciados, frágeis, dando-lhes a mão quando atingem a dependência. Isto porque não conseguimos ter mão antes de eles perderem as suas capacidades e terem possibilidades de reivindicar, refletir e decidirem.

Mas todos os idosos são dependentes, carenciados e frágeis? Não.

Novos idosos apresentam novas necessidades (precisam mais do que a mudança da fralda, a higiene diária feita na cama, a algália e a sonda Naso gástrica, o apoio no levante e a comida dada á boca).

Podemos responder às novas necessidades (acompanhamento, isolamento, modelos de modo de vida saudáveis, prevenção de riscos habituais, felicidade, ocupação e utilidade, motivação) com este modelo que temos? Queremos nós todos ter este modelo de intervenção no nosso envelhecimento? Podemos ter lares para 2 milhões de pessoas nos próximos anos?

É pois necessário criarmos rapidamente novas respostas.

E é aqui que refletimos obrigatoriamente sobre a família, tema deste congresso e preocupação da Associação que o promove.

É fundamental reinventarmos a família, torna-la protagonista nesta área, reconstrui-la dando-lhe capacidade financeira e de intervenção de modo que também possa procriar mais e combater o envelhecimento. Apoiar as famílias para cuidarem dos seus em casa quando envelhecem pode trazer-nos as alterações necessárias para que as mesmas também tenham condições para aumentarem o número de filhos. Tem sido a destruição do núcleo familiar que tem mais contribuído para o envelhecimento da população por duas vias: o aumento da esperança de vida e a diminuição da natalidade. O que temos de comum? A Família.

Temos que desenvolver processos de reeducação da família, mais modernos, agora sem a obrigatória discriminização da mulher, podendo hoje ser qualquer dos conjugues a tornar-se o cuidador. Formar a família com novos princípios e novos valores de solidariedade intergeracional e coletiva. Ela é o único apoio possível a Velhos e novos. O único apoio que teremos capacidade de financiar no futuro. Idosos mais funcionais, mais felizes, mais apoiados podem ser também cuidadores e crianças e jovens podem ser solidários com o envelhecimento dos seus familiares. É nesta sinergia que poderá estar uma das principais soluções para o futuro que se avizinha.

É necessário um discurso nacional, uma intervenção global da comunicação social, dos principais agentes sociais e novas propostas dirigidas à família. E mesmo tendo em atenção alguns novos problemas que são hoje já levantados como o conceito de família europeu que está ultrapassado em função das migrações e da existência de novos conceitos familiares, é sempre nesse núcleo que deveremos apostar as nossas preocupações.

Para isto são necessárias politicas publicas desenvolvidas com base em evidência científica que responsam às verdadeiras necessidades e que sejam auditadas também publicamente. Politicas publicas que leiam os números e as conclusões dos estudos científicos e que sejam orientadas eficazmente e não ao sabor das marés e das modas ou ao sabor dos interesses corporativistas das instituições.

Não podemos mais tolerar o “Estado das Instituições” em detrimento do “Estado Social” ou de outro estado qualquer. Não podemos mais continuar a justificar a existência das instituições por razões e problemas que temos obrigação de resolver sem recorrer a elas.

É preciso entendermos que por vezes parece existir uma guerra aberta às famílias desenvolvendo preconceitos que é no seio das mesmas que existem mais maus tratos. Afirmações baseadas em nenhuma evidência científica e em estudos que muito deixam a desejar e que nunca poderão ser considerados fiáveis e creditados. A perceção não corresponde à verdade, à realidade. Esperamos que este discurso dos maus tratos da família, dos acontecimentos críticos no seio da família se tornarem permanentemente mediáticos não seja afinal uma estratégia para empurrar as pessoas para as Instituições e justificar a sua existência.

Não nos agrada o facto de vivermos num país em que os indicadores da desgraça tornam-se habitualmente indicadores de êxito. Hoje todos apregoam que cada vez mais tem mais clientes carenciados, cada vez mais distribuem mais sopas aos pobres, cada vez mais fazem mais campanhas contra a fragilidade e a pobreza, cada vez mais gastam mais recursos. Não será isto um indicador negativo? Afinal se todos fizéssemos o nosso trabalho cada vez menos existiam estas necessidades.

Todos sabemos e percebemos o que temos que fazer. Vamos a isso.

Muito obrigado pela atenção dispensada

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ASSOCIAÇÃO AMIGOS DA GRANDE IDADE NO PROGRAMA DA MANHÃ DA CM TV

Fev 2, 2015

QUARTA-FEIRA, 18 DE FEVEREIRO

A Associação Amigos da Grande Idade, representada pelo seu presidente, volta ao programa da manhã, da Correio da Manhã TV para falar sobre abandono de Idosos, no próximo dia 18 de Fevereiro.

Este honroso convite surge na sequência de uma presença naquele canal de televisão do presidente da Associação que no final do programa em conversa informal com os apresentadores despertou a curiosidade sobre algumas realidades nos lares de idosos e na sociedade em geral em relação às pessoas idosas.

Pretende-se encarar esta situação com seriedade e não apenas como notícia bombástica sempre à procura de culpados. Provavelmente os culpados somos todos nós que no exercício da nossa cidadania tantas vezes nos esquecemos do essencial para falar no particular e pouco evidente.

Novas medidas de apoio às famílias, uma nova educação desde os primeiros momentos de vida e nova legislação de financiamento são medidas absolutamente necessárias para debelar este e outros problemas das pessoas idosas.
Estamos parados no tempo e não acompanhamos a evolução da sociedade que nos vai trazendo novos problemas que tentamos solucionar com velhas soluções.

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